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Meu espaço na agenda

Capriconiana nata, sempre fui a pessoa que se afoga em ocupações e obrigações, não só pelo gosto de ter responsabilidades demais, mas também pela necessidade de não lidar com outros sentimentos, pensamentos e aflições que ocupam a alma humana. Quando pareço uma enxurrada emocional, me ocupo até não ter lugar para os sentimentos escapulirem. Foi assim que lidei com o luto no ano passado. Me ocupei com coisas que não deveria, enchi minha agenda com opções de atividades que não me interessavam, me comprometi com trabalhos nos quais eu não acreditava. Mas, às vezes, o luto não pode ser simplesmente ignorado. Não podemos jogar um monte de tralha em cima dele e dizer "fica escondido aí, ok?". A gente sente e sente dor e chora e sofre. Foi aí que percebi que precisava fazer da morte um renascimento para mim mesma. Me deixei sentir cada milímetro da dor, deixei escapar por meus olhos cada mililitro de lágrima. E, depois disso, percebi que eu precisava abrir um espaço na minha agenda ...

Por que esperar pela aposentadoria para levar a vida que sempre sonhei?

 A pandemia de COVID-19, a não vivência de diversos momentos e a dor causada pela perda de entes queridos no último ano me fizeram repensar muitas coisas sobre minha vida e sobre meus sonhos. Tenho 24 anos, tenho sangrado pra cachorro e ano passado uma parte de mim morreu, junto com a minha avó e com a Karou, minha coelhinha de estimação mais velha. Desde que adentrei na vida adulta vivenciei dores e medos que eu não esperava. Me vi, nos últimos 4 anos, mais vezes em hospitais do que esperava... E, bom, ano passado o mundo acabou... Sei que não fui a única que vivenciou coisas horríveis nesse período de pandemia; e eu nem posso dizer que as dores que vivi foram diretamente ligadas ao Coronavírus. Muito possivelmente, se ele não existisse, eu as teria vivido da mesma forma. São as fatalidades da vida, né? Ou: a única certeza que temos é a morte. Mas uma coisa que a quarentena e o distanciamento social fizeram foram me dar uma nova perspectiva sobre isso tudo. Ao passar pelas dores q...

Leio para não ser engolida pela rotina

na semana passada, uma amiga (oi, Luiza) compartilhou a seguinte frase no story do instagram "livro não é  unidade de medida" e essa é uma verdade que deveria ser absoluta. mas isso vai na contramão da sociedade em que vivemos atualmente e vai na contramão da possibilidade de criação de conteúdo para a internet. essa reflexão tem absolutamente tudo a ver com a forma com que eu venho repensando e ressignificando minha vida, minha produção acadêmica, meu trabalho como professora e, óbvio, minha relação com o universo virtual. estar no instagram enquanto "produtora de conteúdo", apesar de não viver disso, me fez muitas vezes reconfigurar minha vida e ter crises de identidade sobre como o que eu gostaria de fazer/ser. nunca vi na internet uma possibilidade de trabalho, apesar de sempre gostar de falar por aqui (vide este blog que criei há muitos anos). falar sobre as coisas, trocar ideias e experiências sempre foi uma grande paixão para mim e foi um dos motivos pelos qu...

Uma reflexão sobre presença

Enquanto aguardo minha reunião de trabalho, tomo um delicioso e aconchegante chá de guaco com gengibre e mel. É impressionante como momentos que antes eu não valorizava tanto passaram a ser tão importantes para mim nos últimos meses. Estar presente tem sido cada vez mais necessário para mim. Estar presente de verdade. Perceber o ar inflando meus pulmões, sentir a água ou o chá umedecendo minha língua e escorregando pelo meu esôfago e hidratando cada célula do meu corpo são atenções que até então eu não tinha. Perder entes queridos e, ao mesmo tempo, não poder ter contato com aqueles que continuam vivos é doloroso e faz a gente perceber o que de fato importa. Por isso, tenho tido a delicadeza e a necessidade de, ao estar presente, me comprometer em estar ali de corpo, mente, alma e coração. A tecnologia tem nos permitido um mínimo contato com as pessoas queridas, tem nos permitido também manter nossos trabalhos e atividades de forma remota, mas, ao mesmo tempo, ela tem nos distanciado d...

Um manifesto em favor dos sebos

Nunca tinha parado para pensar há quanto tempo frequento livrarias. Lembro de, na infância, ir à biblioteca municipal e pegar alguns livros. Só que de começar a ir às livrarias, eu não me lembro. Mas é engraçado, porque, ao mesmo tempo, tenho muitas recordações da minha mãe me dando gibis da turma da Mônica quando eu era mais nova. Lembro inclusive da livraria em que ela comprava. Quando me tornei adolescente, lembro da minha mãe dizendo que ia comprar meus livros da escola num “sebo”. Mas que diabos é isso?! Foi quando ela me disse que era uma livraria que vendia livros usados. E, na verdade, era exatamente a mesma livraria que ela comprava aqueles meus gibis que eu gostava tanto. Sempre soube que meus gibis e meus livros eram usados, mas nunca soube que as livrarias que vendiam livros de segunda mão tinham outro nome. Hoje, posso dizer que sou super adepta dos sebos. Uma seguidora incontestável. A maior parte dos meus livros são usados, até porque eu decidi ser classicista, né?  ...

Para 2021, quero ser um pouco mais como as andorinhas que vejo pela janela...

    Estou de férias. E agora? Tenho tempo para ver os filmes que falei que queria ver, ler os livros que comecei e não consegui dar continuidade, aprender de fato a costurar, observar os pássaros e a chuva, respirar de forma mais lenta e não pensar em absolutamente nada relativo à vida acadêmica e ao trabalho pelos próximos dias.     Entre um gole e outro de chá, penso que não sei mais lidar com uma vida calma e com o fato de não ter crises de ansiedade por achar que não darei conta de tudo o que precisa ser feito. A vida é tão melhor assim, mas confesso que estou assustada. Sinto que, a qualquer momento, vou me dar conta de que, na verdade, eu precisava entregar um trabalho ontem e simplesmente esqueci.     Pensando nisso, minha respiração oscila, o coração dispara, o nervosismo e a vontade de sair correndo e gritar voltam a me assombrar. Velha amiga, você aqui de novo. Essa sensação eu conheço muito bem. Não gosto dela, mas me acostumei a estar em sua com...

Uma millenial em crise ou gostaria que a moda dos anos 90s/00s não se restringisse às roupas...

    Nunca fui de falar abertamente sobre meus sentimentos por aqui, não de maneira tão direta, pelo menos. Mas, nos últimos tempos, tenho tido uma sensação que não passa... Uma sensação de não pertencimento, que sei que, constantemente, faz com que as pessoas não se sintam confortáveis onde estão ou com quem estão.          Só que, andando por aí e rolando as redes sociais, é possível perceber  que não sou a única a ser assombrada pelo espectro do não-lugar. Aparentemente, grande parte da minha geração está passando pela mesmíssima situação. E, por isso, estou aqui, sentada em uma cadeira giratória, com o notebook aberto e um fone enorme tocando uma playlist chamada "Lane Kim's Music Library" - claramente feita por alguém que tem experienciado o mesmo sentimento que eu - num daqueles streamings de músicas.           A verdade é que parece que a geração 90s está enfrentando uma crise de pertencimento... Nosso caráter f...