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Por que esperar pela aposentadoria para levar a vida que sempre sonhei?

 A pandemia de COVID-19, a não vivência de diversos momentos e a dor causada pela perda de entes queridos no último ano me fizeram repensar muitas coisas sobre minha vida e sobre meus sonhos.

Tenho 24 anos, tenho sangrado pra cachorro e ano passado uma parte de mim morreu, junto com a minha avó e com a Karou, minha coelhinha de estimação mais velha. Desde que adentrei na vida adulta vivenciei dores e medos que eu não esperava. Me vi, nos últimos 4 anos, mais vezes em hospitais do que esperava... E, bom, ano passado o mundo acabou... Sei que não fui a única que vivenciou coisas horríveis nesse período de pandemia; e eu nem posso dizer que as dores que vivi foram diretamente ligadas ao Coronavírus. Muito possivelmente, se ele não existisse, eu as teria vivido da mesma forma. São as fatalidades da vida, né? Ou: a única certeza que temos é a morte.

Mas uma coisa que a quarentena e o distanciamento social fizeram foram me dar uma nova perspectiva sobre isso tudo. Ao passar pelas dores que passei (e estou passando) em um período em que estamos distantes de tudo e de todos e que não temos aquela nossa rotina habitual, eu sinto ter experienciado todas essas questões de forma muito mais intensa. Afinal, não tinha pra onde fugir.

Eu reaprendi a dar valor a coisas que há um bom tempo eu não valorizava. Eu descobri especialmente que viver de forma mais calma e leve é o que eu quero pra minha vida... Eu sempre fui muito atarefada, mas, na infância, quando eu fazia ballet, jazz, sapateado, karatê e aula de música, eu amava cada minuto do que eu estava fazendo, eu aproveitava, eu vivenciava e eu estava absorta naquilo de fato. Nos últimos anos, percebi que, além de fazer muitas coisas, aparentemente, eu fazia todas elas ao mesmo tempo. Minha cabeça não se desligava das outras mil coisas que eu precisava fazer, mesmo que eu estivesse no prazo ou que eu pudesse deixar para outro momento.

Foi assim que, ano passado, eu aprendi a me organizar verdadeiramente e essa organização não é para eu dar conta de "fazer mais coisas", muito pelo contrário, é pra eu dar conta de fazer menos coisas, de descansar e de aproveitar os momentos de ócio e as oportunidades de estar com as pessoas que eu amo.

Eu descobri que não quero me atolar com atividades que sejam só para agradar os outros e que não quero fazer nada só pra ter um bom rendimento financeiro e "sucesso", mercadologicamente falando. Bom, eu faço Letras - Latim atualmente e isso deveria ser óbvio, né? Mas não era. Mesmo fazendo minhas opções de acordo com o que eu queria pra minha vida, me vi em diversos momentos refletindo sobre o quanto eu deveria vender meu serviço pela internet e virar uma "empreendedora da educação", sobre o quanto eu deveria ganhar mais e mais e mais dinheiro e ler mais e mais e mais livros numa velocidade absurda.

E aí eu perdi minha avó pro câncer e perdi minha coelhinha, sabe-se lá o motivo... Coelhos não têm a vida mais longa do mundo, a partir dos 6 anos já são idosos e, bom, a Karou já tinha feito 7. Eu vivenciei muito tempo de hospital com minha avó nos últimos dois anos e, então, ela se foi. Poucos meses depois, minha coelha se foi também. E nada mais parecia ter sentido. Eu só queria ter mais tempo com cada uma delas. E eu sempre fui uma boa neta e uma boa tutora. Sempre que podia, no meu tempo livre, estava com minha avó, queria saber como ela estava, eu de fato me dedicava, eu amava estar com ela. Assim como com minha coelhinha. Mas não parecia o suficiente, sabe? 

E foi quando eu percebi que é porque, por mais que eu usasse meu tempo livre para estar com as pessoas que eu amo, além de ter pouco tempo livre, muitas vezes, eu me culpava por ficar realmente livre neles. E, então, eu passei a priorizar esses momentos livres. Não há nada que faça mais com que eu trabalhe aos domingos, por exemplo. E agora estou dedicada de verdade a esvaziar mais a minha agenda. Tudo bem, posso ter menos dinheiro por causa disso, mas vou ter mais tempo e possibilidades para viver minha vida.

Eu não quero viver para trabalhar. Eu quero trabalhar para viver de uma forma minimamente confortável. Eu não preciso acumular muitos bens, desde que tenha uma vida razoavelmente estável. Eu não quero esperar pela minha aposentadoria para poder ter tempo para viver a vida que sempre sonhei. Eu quero viver isso aqui e agora, com as pessoas que eu amo bem e felizes ao meu lado.

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