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É estranho...

É estranho.
Estranho estar sentada aqui, na minha poltrona de couro, no canto de uma biblioteca fria, ou melhor, da minha biblioteca fria, em frente a uma lareira, com um cigarro eletrônico em minha mão, escrevendo neste diário depois de tantos anos.
É estranho.
Estranho ter escolhido justamente este diário. Maldito diário! Tantos risos, tantos prantos, tantas fotos, tantos sonhos. Há tantos anos...
É estranho.
Estranho eu ter levantado, ido até a vitrola e ter escolhido aquele disco. Aquele disco, com aquelas histórias, com aquele arranhado, com aquele bilhete, que obviamente caiu ao chão, quando coloquei o disco para tocar aquela música. Nossa música.
É estranho.
Estranho eu estar aqui, escrevendo meus sentimentos e tudo o que está acontecendo, num diário da minha adolescência, que ganhei de você, dizendo que eu deveria escrever sempre, pois meus textos te faziam cada vez mais apaixonado, enquanto tomo um copo de uísque. Caro. Amargo. Você tentou me ensinar a gostar, mas sempre reclamei pelo amargor. Mas, depois que cheguei aqui, não pude ficar sem uma garrafa.
É estranho.
Consegui tudo o que eu queria: pós-doutorado, oito idiomas fluentes, lecionar sobre Literatura Brasileira na melhor universidade da Inglaterra, casa própria (uma puta casa, diga-se de passagem), uma biblioteca com 2.500 exemplares só meus, um carro maravilhoso. A vida dos sonhos.
É estranho.
Abandonei minha família. Abandonei meus amigos. Abandonei você. Tudo por conta deste sonho. Maldito sonho! E, hoje, ao encontrar este diário infeliz e tomar este uísque, o único amargor que sinto é o da minha, pobre e infeliz, vida. Medíocre. Não adianta tudo o que tenho. Não tenho você e nem ninguém com quem dividir. Desgraça miserável!
É estranho.
Pois cada ponta de felicidade que sinto, não faz sentido. Só faria sentido se um dia eu tivesse você.
É estranho.
E o mais estranho é que cada palavra que escrevo neste maldito diário é para você. Um desabafo sobre o que sinto e um pedido de perdão. Mas você nunca vai saber.
É estranho...

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