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Poderia ser uma prosa sobre suicídio...

Abro os olhos. A luz do sol entrava no meu quarto pelas frestas da cortina. Malditas frestas. Abro a cortina por inteiro, me sinto o próprio Drácula ao encarar o sol. Olho para o relógio, 06 horas, em ponto. Nem um minuto a mais, nem a menos. Faltam 35 minutos para o despertador tocar. Aparentemente, meu relógio biológico - e isso existe?! - se adaptou à necessidade de acordar cedo, quando se vive num mundo capitalista. Ou talvez sejam só aquelas frestas na cortina. Malditas frestas!

Respirei fundo e pus em prática todos os hábitos de higiene pessoal que se fazem necessários às 06h05. Saí do banho, escovei os dentes. Lembrei da cortina, das malditas frestas e daquela luz que invadiu meu quarto, tentando fazer com que o dia seja bom - até parece! -, passei protetor solar no rosto e nas mãos.

Olhei-me no espelho. Talvez devesse passar base e corretivo para esconder a cara de quem havia chorado madrugada a dentro. Ignorei as olheiras e liguei a cafeteira. Enquanto minha pequena felicidade ficava pronta, lavei a louça, coloquei as roupas brancas na máquina, que eu tinha ganhado de presente de casamento - parece que tanto tempo se passou.  A cafeteira apitou.

06 horas e 50 minutos. Café puro, sem açúcar. Leio as notícias, respondo os e-mails, ligo para a minha mãe, olho para o outro lado da mesa e não há ninguém, pego o celular e ligo para... Desligo o celular.

Vou para o trabalho, 2 horas de almoço, trabalho até às 18h. Saio do trabalho, compro um café preto, sem açúcar - para esquecer o amargo da vida, ele dizia - , na padaria ao lado. A de sempre. Mas não estava como sempre, porque faltava... Meu telefone tocou, era minha amiga, esqueci que é sexta. "Tenho que ir mesmo?", "eu sei que prometi, mas...", "Tá bom, às 20h a gente se encontra".

20h. Não passei maquiagem, não arrumei o cabelo. Calça jeans e camiseta. Fomos para o bar que minha amiga queria. Cerveja barata. Cachaça barata. Nada de comida. Beijei um cara qualquer, bonito até, mas ele não era o... Peguei o celular. Precisava ligar pra ele. Minha amiga não deixou.

Mais cachaça. Mais cerveja. Pedi batata frita. Se comi, não lembro. Mais cerveja, mais cachaça. Choro. Por que ele fez isso? "Ela se maquia sempre e você não", "ela tem silicone e você não", pensei.

Chorei mais.

Minha amiga queria que eu dormisse na casa dela. Eu precisava ficar sozinha. Ela me deixou em casa, "não faça besteira". Entrei.

Subi os 5 lances de escada que levam ao meu apartamento. Entrei, fui até meu quarto. Olhei para minha cama. Lembrei de todos os momentos que vivemos juntos naquele lugar. Chorei. Quis ligar. Mas "não faça besteira".

A janela estava aberta. Estranhamente chamativa. O asfalto parecia tão longe. Coloquei a maior parte do meu corpo para fora, fiquei me equilibrando. Aquela vista me lembrava dele. Tão lindo, mas, como o asfalto, tão distante. A cortina prendeu meu pé. Empurrei-a. Maldita cortina!

Pus meu corpo ainda mais pendurado no parapeito da janela. Ele está tão distante. O asfalto está tão distante. Fiquei zonza e mais triste. O asfalto está ali. Eu estou aqui. É agora ou nunca...

Vomitei. 

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